2ª Entrevista Exclusiva – Guilherme Ramos

28 05 2010

Depois do anúncio (clique aqui para ver), chegou a hora de satisfazer a curiosidade dos leitores e divulguar o entrevistado. Guilherme Ramos, que rumou á Islândia recentemente, aceitou responder a 15 questões que o”Portugueses no Estrangeiro” teve o maior prazer em elaborar. Confira as respostas e conheça melhor este extremo português que dá os seus primeiros passos no futebol estrangeiro:

1) Pelas suas habilitações literárias, vejo que sempre conseguiu conciliar o futebol com os estudos. Foi uma tarefa fácil? Tendo um grau de instrução considerável na área de jornalismo, exerce alguma actividade relacionada ou dedicou-se exclusivamente ao futebol?

De facto a minha vida foi sempre dividida entre o futebol que sempre foi o meu grande sonho, e os estudos que sempre foram o meu “suporte” realista de vida. Ou seja, se o futebol falhasse, teria um caminho por onde seguir. Felizmente sempre conciliei as duas coisas, com maior ou menor dificuldade, até que a partir de uma determinada altura coloquei a minha licenciatura no topo das minhas prioridades, deixando o futebol não digo para segundo plano, mas não como o grande caminho a seguir. Felizmente terminei a minha licenciatura e tirei duas especializações em jornalismo, e como tal estou agora dedicado ao futebol de uma forma efectiva. Ainda não exerci qualquer tipo de função na área, mas sei que quero muito ser jornalista… só não sei quando. Quero agora desfrutar do futebol enquanto tenho idade.Com 35 anos posso ser jornalista, futebolista é que já será mais complicado.

2)O Belenenses, onde esteve de 1994 a 1999(camadas jovens), foi o clube que mais contribuíu para a sua formação enquanto jogador?

Foi um clube que contribuiu para a minha formação, na medida em que foi o primeiro e de certa forma foi lá onde aprendi as noções básicas do jogo, e os primeiros conceitos relacionados com a competição. Todos os locais por onde passei contribuíram para o meu crescimento, não só nas camadas jovens como ainda hoje.

3) Quando foi para as camadas jovens do Sporting, clube que lançou dos melhores jogadores portugueses da actualidade, achou que podia afirmar-se ao serviço de um grande português?

Sim, foi na realidade o concretizar de um sonho. Quando na altura fui convidado pelo Sr. Aurélio Pereira foi maravilhoso. Tive enormes ilusões na minha cabeça, que passavam por afirmar-me no clube e conseguir um dia chegar à primeira equipa. Hoje faço um “ema culpa” e assumo que não me preparei bem na altura para singrar. E acabei por sair infelizmente mais tarde.

4) Chegou a ser chamado para um treino com o intuito de ser observado por Lazlo Boloni, como correu esse dia? O treinador fez algum tipo de comentário ou análise sobre a sua prestação?

Foi a meio da temporada, o Sporting chamou alguns jogadores que por uma via ou por outra tinham ligação ao clube. Da minha parte havia a hipótese de regressar a qualquer momento. Esse treino foi atentamente observado pelo então treinador da equipa principal Lazlo Boloni. Foi óptimo, contudo não tive qualquer contacto ou comentário à minha prestação por parte dele. Mas a experiência foi óptima.

5) Enquanto sénior, as sua melhores épocas parecem ter sido as últimas 2 ao serviço do Lourinhanense. Concorda com este ponto de vista?

Sim pode-se dizer que sim. Julgo que depois da minha primeira saída do Lourinhanense, tive a oportunidade de passar por outros clubes onde aprendi bastante e “amadureci” como jogador. Quando voltei para o Lourinhanense julgo que estava um outro jogador, e consegui crescer ainda mais no clube, onde me sentia em casa. E esta última temporada julgo que atingi a minha melhor forma, fico feliz porque isso ajudou a equipa.

6) Nessas mesmas épocas marcou cerca 33 golos, número bastante considerável para um extremo. Jogou em posições mais subidas do terreno? Costumava bater algum tipo de bolas paradas (livres, penaltis, etc) ?

Sim, costuma-se ouvir certos “clichés”, nomeadamente que os golos são o fruto do trabalho da equipa e de facto é verdade. Como extremo tenho de dizer que fui extremamente bem servido e apoiado pelos meus colegas de equipa, e felizmente consegui transformar em golos, o trabalho de toda a equipa. Também marquei alguns na conversão de livres e grandes penalidades.

7)Recentemente decidiu mudar-se para a Islândia, onde representa o UMF NJARDVIK , da 1ª divisão. Que factores estiveram na origem desta decisão?

Quando acabei a minha licenciatura no ano passado, defini um objectivo para a minha vida. Com o curso terminado, pensei que seria a altura de tentar agora algo mais no futebol. Acontece que me preparei como nunca o havia feito. No verão aquando os meus colegas e amigos estavam na praia, treinei arduamente duas vezes por dia, para conseguir chegar ao campeonato um passo à frente de todos os outros. Mesmo com a temporada em curso, continuei a treinar pela manhã sozinho para que estivesse sempre no máximo das minhas capacidades físicas. O intuito era fazer uma grande temporada e tentar sair para uma liga estrangeira. Nunca escondi isso. Sempre disse, que sendo um sonho jogar na 1ª liga ou 2ª liga em Portugal, o meu maior sonho era jogar no estrangeiro. A época correu bem, e acabei por ser convidado pelo Njardvik. Felizmente atingi o que procurava e para aquilo que tinha trabalhado.

8 ) Sendo a Islândia um país cuja actividade futebolística não é muito divulgada na Europa , que prespectivas têm num país tão longínquo?

Procuro em primeiro lugar, uma experiência nova, que posso dizer desde já que está a ser a melhor da minha vida. O país não é propriamente da elite do futebol, como é sabido, no entanto o futebol aqui é bom e o país é muito bonito para se viver. Procuro aproveitar e tentar dar o melhor de mim noutro país, noutro tipo de futebol, noutra cultura. No fundo pôr-me à prova e tentar acrescentar algo à minha nova equipa. Depois quem sabe, perspectivar-me novas aventuras neste ou noutro país. Quero desfrutar desta profissão, e tentar deixar uma marca pelos clubes onde passo. É isto que procuro.

9) Acha que o estrangeiro é uma hipotese que muitos portugueses procuram para se poderem afirmar no mundo do futebol? Na sua opinião , qual a razão para tanta exportação de jogadores sul-americanos para Portugal?

Sinceramente julgo que para alguns é a única via de conseguirem ser profissionais de futebol. Basta ver a quantidade de portugueses espalhados por todo o mundo, nas mais diversas ligas à procura dos seus sonhos e a tentar fazer aquilo que bem sabem fazer, mas que infelizmente no nosso país não nos permitem. A aposta em sul-americanos é a aposta no mercado fácil. Julgo que o pensamento é de que uma equipa ficará mais forte com um jogador vindo de fora do que com um atleta português vindo da formação. Não sou contra os estrangeiros no futebol, longe de mim, até porque neste momento estou a fazer o mesmo e possivelmente há jogadores Islandeses a queixarem-se desta situação. No entanto custa-me ver grandes jogadores que tiveram que sair do país ou abandonaram o futebol porque não tiveram sequer a oportunidade que deviam e mereciam. É a triste realidade do nosso futebol, no entanto volto a frisar, estrangeiros precisam-se sim… mas os de qualidade! Para as carradas de jogadores estrangeiros de qualidade duvidosa que chegam a Portugal, temos milhares de jovens valores capazes de fazer melhor.

10) A aposta na formação, é algo que tem faltado aos clubes lusos, e provavelmente constitui um dos factores que leva à emigração de tantos futebolístas. Considera que esta foi uma das causas que contribuíu para a sua “aventura” na Islândia?

No meu caso, como já disse anteriormente foi uma das razões que me levaram a emigrar. Sabia antemão, mesmo com uma grande temporada quer a nível colectivo quer a nível individual, seria muito difícil conseguir atingir um patamar alto em Portugal (1ª ou 2ª liga), porque simplesmente os clubes não fazem esse tipo de apostas. E lá está, um jogador das distritais do Brasil por exemplo vale mais do que um Português. Sim, foi uma das razões, aqui jogo num patamar, que em Portugal não conseguiria para já. Quem sabe esta passagem pelo estrangeiro abra as portas dos escalões mais altos do futebol Português. Julgo que é isso que os jogadores emigrantes Portugueses procuram… a consagração no seu país.

11) Que diferenças culturais e desportivas encontrou nesse país?

As diferenças entre Portugal e a Islândia são enormes a todos os níveis, quer a nível cultural quer ao nível do futebol. A Islândia é um país grande, mas somente com 300 mil habitantes. É um país extremamente seguro e prova disso mesmo são os cerca de 800 polícias que existem no país… não são necessários mais. Os carros ficam abertos e as portas das casas igualmente. Em Portugal não creio que isto seja possível. Esta é altura do Verão e em breve haverá 24 horas de luz, deixando de haver noite. Neste momento temos 2 horas de noite por dia, é estranho mas é giro. O frio é muito por aqui, e o país é extremamente caro, tudo é caro. Houve um crash na economia do país em 2008 e a Islândia sofre bastante com isso desde então, estão a ser duros longos anos para recuperar o país. No entanto é um país lindíssimo para se viver. Quanto ao futebol existem grandes diferenças também. Aqui sendo uma liga profissional, muitos jogadores (os Islandeses) têm outro tipo de actividade sem ser o futebol. Ninguém ganha fortunas na Islândia com o futebol, porque essa é a realidade do país. Em Portugal as ligas profissionais são mesmo profissionais.
Quanto às condições de treino, essas são de facto magníficas por aqui. O meu clube tem o Estádio principal, tem dois campos de treino relvados, e ainda um Estádio Interno com relva sintética. E esta é norma aqui na Islândia.
O futebol jogado propriamente dito é aqui parecido com o Inglês. Muito físico, prático e directo, com pouco espaço para pensar e as faltas são raras. Em Portugal o futebol é mais apoiado, mais técnico, há mais espaço e o jogo está constantemente a parar com faltas.

12)Os adeptos sentem a modalidade de forma intensa, ou o futebol tem pouca expressão por aí?

O ambiente nos jogos é de facto muito bom. O público é apaixonado pelo jogo, na medida em que aqui ao contrário do que se possa pensar, o futebol é o desporto número 1. O desporto numero dois é o … futebol feminino. Portanto o futebol tem grande expressão aqui no país, e o público torce afincadamente pela sua equipa.

13) O UMF NJARDVIK, clube pelo qual assinou , é da 1ª divisão, sendo portanto uma mais valia para si, uma vez que joga no escalão principal do país. Que grandeza tem o clube? (número de títulos, sócios … )

O Njardvik, é um clube que foi promovido este ano à first division, e aqui na Islandesa é conhecido como a equipa “io io” na medida em que é com frequência que um ano é despromovido, e no outro ano sobe de divisão, e no seguinte desce, e depois volta a subir.
O clube julgo que não terá muitos sócios, como de resto, acontece com a maioria dos clubes aqui na Islândia. O país tem poucos habitantes (300 mil) e a maioria concentrados na capital. A vila de Njardvik tem somente 5000 habitantes.

14) A integração ao país e ao grupo de trabalho foi fácil, ou passou por situações complicadas?

A integração ao país é como em tudo feita de forma gradual. No que toca ao clima, é de facto difícil porque as temperaturas são sempre muitos baixas e entre o sol e chuva pode haver uma distância de minutos. O facto de ser sempre de dia nesta altura pode afectar um pouco o sono, mas depois habituamo-nos.
Quanto às pessoas, são todas elas muito cultas… todas falam Inglês e isso é fundamental. No entanto não são muito dadas no contacto. Particularmente, todas as pessoas me tratam muito bem, desde Presidente, Directores equipa técnica e colegas.
A comida é diferente e por vezes não é possível refeições muito variadas porque aqui a variedade é pouca relativamente aquilo que estou habituado e gosto de comer. Como muita massa por aqui. A não ser que queiramos comer “Cabeça de carneiro” ou “tubarão podre” que são pratos tradicionais aqui na Islândia.De resto, a vida é talvez 3 ou 4 vezes mais cara do que em Portugal… em tudo.
No entanto estou a adorar a experiência e o país, e a adaptar-me bem de forma gradual.

15) A nível pessoal, certamente foi uma decisão complicada, como foi ter de abandonar o país e provavelmente alguns familiares?Sente o apoio deles mesmo á distância?

Foi uma decisão complicada que a nível pessoal quer a nível desportivo. Os timings tinham de ser estes, deixei o Lourinhanense a 4 jornadas do final, quando ainda estávamos na luta pela subida, felizmente já alcançada. Mas tive de vir naquele momento visto que o campeonato se iniciava aqui a 9 de Maio.
A nível pessoal, é sempre difícil deixar o meio onde vivemos e somos acarinhados. Deixar a família e a namorada foi difícil, mas estava preparado e todos compreenderam. Os amigos também e os ex-colegas sinto a falta de todos, mas estou feliz com a minha decisão. Fiz o melhor para mim. Falo regularmente com todos eles via internet, e isso atenua um pouco a saudade.

O “Portugueses no Estrangeiro” agradece toda a disponibilidade e simpatia manifestadas por Guilherme Ramos, desejando-lhe as maiores felicidades na sua carreira desportiva.

Anúncios

Ações

Information

11 responses

28 05 2010
O Nosso Futebol

Não conheço o jogador,mas pelo que li ele tem razão.Os jogadores portugueses têm de ir para o estrangeiro para conseguirem lugar no plantel principal do clube,já que em Portugal não têm oportunidade devido aos vários estrangeiros encontrados no clube.Muitos dos jogadores de qualidade que saíem das camadas jovens e não são valorizados.Acho que os clubes portugueses deviam apostar mais nas camadas jovens.

Mais uma grande entrevista.
Parabéns.

O Nosso Futebol
http://onossofuteb0l.blogspot.com

28 05 2010
O Lado Do Futebol Que Nunca Viram

O Blog Está de VOlTA!

28 05 2010
Carlos Sena

Parabéns pela entrevista
muito legal mesmo, pena que para dar certo no futebol alguns tem que abandonar o casa, família e amigos.

Muito boa entrevista

28 05 2010
Mattos

Parabens pelo seguimento desta bela iniciativa, já tinha gostado da primeira efectuada ao Tozé Marreco e voltei a gostar desta que transcreve a vida de um futebolista num Pais gélido e longinquo como é a Islândia.
Não conhecia o jogador em causa, mas vê-se claramente que tem uma excelente postura fora e dentro do relvado.
É sempre agradavel conhecer os muitos jogadores Portugueses que navegam alêm fronteiras.

Mattos….paixaodabola.blogspot.com

28 05 2010
fm

Muoto boa a evolucao do seu site.Parabés
SD

28 05 2010
César João

Gostei,e já agora parabéns pelo blogue,está muito bem elaborado.
Sinceramente,não conhecia,por cá passarei mais vezes,aliás já me vou tornar seguidor.Caso queira passar pelo meu blogue,terei muito gosto.De vez em quando também abordo temas do futebol,a minha frande paixão.

29 05 2010
DC

o vosso link ja foi adicionado
qd adicionarem o nosso avisem
obrigado
http://dcfutebolclube.blogspot.com/

29 05 2010
O lado do futebol que nunca viram

Excelente entrevista!

Continue com o bom trabalho no blogue.

Cumprimentos

29 05 2010
Ricardo Ferreira

bela entrevista. o futebol numa grande fatia do seu bolo é muito dificil, e quem gosta e faz por poder viver a fazer o que mais gosta, tem muitas vezes de sujeitar-se e sofrer muito em algumas situacoes peculiares… este jogador tem pelo menos uma coisa que é fantastica, admiro e gostava de estar no seu lugar, que é o país ser altamente civilizado, super interessante para explorar e as pessoas serem educadas e cordiais.boa sorte

30 05 2010
Boygenius

Excelente entrevista e muito bom Blog!!!
Parabéns!!

… e muita sorte pró Guilherme Ramos!!

16 06 2010
G.Ramos termina “aventura” na Islandia « Portugueses no Estrangeiro

[…] Guilherme Ramos, que já foi entrevistado pelo “Portugueses no Estrangeiro” (clique aqui para ver), terminou a ligação com o NJARDVIK. As razões da despedida do clube podem ser lidas no […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: