Entrevista exclusiva com Tozé Marreco

11 05 2010

Depois do anúncio(Clique aqui para ver), chega finalmente a altura de revelar o jogador entrevistado. Trata-se de uma entevista exclusiva, via mail, que o “portugueses no estrangeiro” teve orgulho de poder fazer. Tozé Marreco, goleador que representa o Servette(Liga Suiça), levando cerca de 12 golos nesta temporada, foi o escolhido para esta entrevista:

1)Ser jogador de futebol foi sempre o seu objectivo desde muito jovem? Como conciliou a vida desportiva com os estudos?

“Sempre foi um objectivo. Sempre. Nunca foi muito fácil conciliar isso também é verdade. Jogava em Coimbra e estudava em Miranda do Corvo. Saía das aulas em Miranda já tarde, ía para o comboio para chegar a Coimbra. Era esta a rotina. A verdade é que nos Juvenis já treinávamos 4 vezes por semana e nos juniores 5. Claro que era díficil às vezes mas tinha que ser assim. Sem esquecer logo no 2ºano que joguei futebol tb em Coimbra, mas desta vez no U.Coimbra que o meu Pai ía e vinha comigo sempre de carro porque ainda era muito pequeno para andar sozinho de comboio. Não foi um esforço só meu foi também dos meus Pais.
Mais velho já com carta de condução e talvez com maior responsabilidade e consciente da dificuldade do futebol, conciliei tão bem que acabei por entrar na Universidade de Coimbra.”

2) Indique quais as diferenças culturais e desportivas dos países por onde já jogou.

“Começando pela Holanda, é realmente uma escola do futebol. Aconselho todos os jogadores jovens que tenham a oportunidade de lá estar um tempo que o façam. Tinha um treinador só para trabalhar com os avançados. Os teus defeitos eram corrigidos diaramente. O futebol na Holanda é realmente uma escola. Jogo de pé para pé, bola sempre no chão e poucos toques. Muito bom. O país era extremamente organizado, limpo e bonito. O nível de vida era realmente bom.
Espanha é provavelmente a melhor Liga do Mundo e em termos de 2a Liga é também a melhor do Mundo. Profissionalismo ao máximo. Preparação do jogo por parte dos treinadores muito profunda. Para se ver na minha Liga estavam Ricardo Oliveira, Ayala e até o Fábio Coentrão. Fiz um jogo Real Sociedade-Aláves em que estavam 40000 pessoas… numa 2ºa Liga é extraordinário. Espanha foi o país onde mais gostei de viver. A forma de estar e viver o dia a dia deles marcou-me. Não vivem só para o trabalho, vivem o dia a dia ao máximo. E não só os jovens, todas as faixas etárias o fazem.
Na Bulgária foi o pior período da minha vida desportiva. Passei por algumas coisas que prefiro nem falar. Coisas complicadas no dia a dia, nos treinos e na parte mais pessoal. Não foi fácil. O campeonato e o nível de profissionalismo também é muito baixo. O país em si não é realmente muito agradável mas é assim mesmo…
Agora a Suiça comparo um pouco o nível do campeonato com a Holanda e até o próprio país em si. O país é muito organizado. Aqui ainda tenho outra grande vantagem, a quantidade enorme de portugueses que aqui vivem, os restaurantes, o falar português até o simples facto de poder comprar o jornal diariamente… Foi uma boa escolha que fiz na altura. O futebol Suiço tem muito por onde crescer, dado também ao potencial financeiro que pode ter. É sem dúvida uma liga muito interessante.”

3)  A Chamada à Selecção Nacional de sub-21 para o jogo de apuramento para o campeonato da Europa, contra a Bulgária foi a única vez que vestiu a camisola das quinas?O que sentiu?

“Jogar pela Selecção Nacional foi e será sempre o maior orgulho que eu posso ter. Sempre foi o meu maior sonho. Só espero que brevemente o possa repetir.”

4) Havendo tanta escassez de avançados em Portugal , considera que pode um dia vir a ser o ponta de lança de referência da Selecção Nacional?Muitos comparam o seu estilo de jogo a Pauleta, considera uma boa comparação?

“Referência é pedir muito e eu não sou capaz de pedir tanto. Espero um dia lá puder chegar e acredito que com as oportunidades certas isso poderá acontecer.
Realmente em algumas partes existe alguma semelhança entre o trajecto do Pauleta e o meu mas não posso ter a ambição” de ser comparado a ele. Ele é o melhor marcador de sempre da Selecção Nacional.  É um orgulho compararem a forma como jogamos. Penso que em termos de caracteristicas poderá haver alguma semelhança. Somos os dois jogadores de àrea e lá é que fazemos a diferença. E a ele só realmente um pouco tarde lhe reconheceram valor, também ele teve que sair do país para se mostrar. A mim também considero que poderia ter tido outras oportunidades mas paciência é assim mesmo o futebol. E o Pauleta também teve sempre uma postura fora do futebol que sempre admirei.”

5) Sei que representou as camadas jovens da Académica, mas como sénior não chegou a representar nenhum clube da 1ª Liga portuguesa. Porquê “o salto” para o estrangeiro?

“O salto para o estrangeiro foi para tentar mostrar o meu valor. Não havia outra hipótese. Quando não te dão oportunidade num sítio tens que procurar outro. E realmente já provei um bocadinho que foi a melhor opção. por tudo o que aconteceu depois. Sei e quero que um dia vou jogar em Portugal na 1a Liga mas deixo que as coisas se passem naturalmente. Olhando os factos a esta distância, claro que para mim, é estranho não ter sequer uma oportunidade no plantel da Académica. Fui sempre o melhor marcador nas camadas jovens e até em campeonatos nacionais era dos melhores mas decidiram que não merecia essa oportunidade. QUe podia eu fazer?? Claro que fiquei triste mas não podia baixar os braços. Sou de Miranda do Corvo mas fiz toda a minha vida em Coimbra tanto que agora lá comprei casa à cerca de um ano e claro que sempre quis ter ficado no plantel sénior da Briosa. Falei algumas vezes com o Presidente da Briosa e espero quem sabe um dia lá voltar. Justiça feita à Académica que nestes dois últimos anos tem apostado em jogadores portugueses e muito bem!”

6)O Zwolle foi a 1ª experiência no estrangeiro onde marcou bastantes golos, porque saíu do clube? Pelos dados estatísticos, e tendo em conta a competitividade da liga , considera ter sido a melhor época da carreira?

“O Zwolle foi uma experiência fantástica! Não fiquei porque não achei justo a proposta de renovação feita e porque pensei que iria jogar para um grande em Portugal… Essa é a verdade. Verdade também é que as coisas acabaram por não se acertar.
A época que não esqueço é a minha última de Juniores na Académica. Fiz tanto golo que sinceramente nem sei o número ao certo….”

7) Seguiu-se o Alavés e o Lok.Mezdra , experiência mais curtas, como foi jogar em dois países diferentes na mesma temporada? Foi uma época positiva em termos desportivos?

“Em termos desportivos não foram positivos no geral. Mas tiveram alguns pontos positivos. Fui para o Aláves nos últimos dias de mercado porque deixei as coisas avançar muito no tempo e estava muito indeciso em relação ao meu futuro. Os clubes que eu tinha propostas e para onde gostava de ir, por uma razão ou outra, acabava por não se concretizar. Espanha é uma Liga de sonho. Aprendi muito enquanto lá estive.
A Bulgária foi uma opção mais influenciada por outras pessoas e essa sim foi uma péssima opção. Mas com estas duas experiências ganhei se calhar outras coisas no aspecto psicológico.”

8)Acha que a maioria dos jogadores lusos emigram por razões financeiras? ou porque não lhes são dadas as devidas oportunidades em Portugal? No seu caso, qual a principal razão que o levou a optar por relvados estrangeiros?

“Em Portugal existem demasiados jogadores estrangeiros. E  o maior problema não é serem estrangeiros, é serem estrangeiros sem qualidade nenhuma! E claro que isso rouba muitos lugares aos jogadores portugueses. Penso que deveria haver um limite de estrangeiros por plantel. Portugal tem jogadores muito bons que se veem obrigados a sair do país em busca da sua sorte. Foi isso que eu fiz. Procurei uma solução para a minha vida.
A questão financeira também é muito importante. E agora existem muitos países com uma maior capacidade financeira e claro que isso também conta. Apesar de para mim não ter sido o principal factor quando saí para o Holanda. Mas posso dizer que 2ºB de Portugal para a 2ª da Holanda passei a ganhar 10 vezes mais pelo menos… Olhe só numa escolha minha o factor financeiro foi decisivo, foi na ida para a Bulgária e a acabou por ser uma escolha má. Por isso isto é tudo muito relativo…”

9)Ter de abandonar o país e emigrar várias vezes é psicologicamente desgastante para alguns, sentiu esse desgaste? o apoio dos mais próximos esteve presente quando precisou?

“É extremamente desgastante. Ainda mais para mim que tenho vindo para estes países sempre sozinho. Não é fácil. É complicado mesmo. Mas tens que ter um suporte psicológico grande e uma vontade muito grande também no que estás a fazer. A minha mulher e família para mim é tudo. A minha mulher é a minha verdadeira companheira e a minha mãe e irmãos os meus melhores amigos. Sem o apoio e ajuda deles seria impossível sem esquecer o resto da família. A minha mulher vem cá regularmente a minha mãe e irmãos e o meu pequeno sobrinho já não vejo já lá vão 3 meses… Custa!”

10) Actualmente na Suiça penso que já leva12 golos ao serviço do Servette. Como avalia esta experiência no futebol Suiço?

“Está a ser uma experiência muito boa e com algum sucesso. Foi uma escolha por um clube grande, que se está a reestruturar. Fui muito bem recebido e tenho uma relação única com os adeptos, é mesmo impressionante. Vão ficar para sempre guardados comigo…”

11) Ser treinado pelo português João Alves, favorece a sua adaptação?

“Eu já cá estava quando o Mister chegou. Portanto fui mais eu que o tentei ajudar a ele no que pude e soube. Mas de resto não favorece mais nada.”

12) Para além de si, existem outros portugueses a actuar na Suiça, como por exemplo, Zé Vitor (St.Gallen), Carlitos(Basileia), N.Ferreira e João Paiva (Luzern), etc… Como são vistos pela massa adepta suiça os jogadores portugueses?

“Numa coisa tenho que ser sincero, nunca vi um jogo da 1a Liga da Suiça… Mas sei que os jogadores que referiu são muito queridos nos seus clubes….”

13)Sendo a Suiça, um país com elevado número de emigrantes, sente o apoio da comunidade lusa ?

“Tenho tido contacto com muitos portugueses e como disse foi uma vantagem na adaptação aqui. Sou muito acarinhado por eles. Para mim é um orgulho muitp grande que eles gostem de me ver. Falo com todos eles da mesma forma. Sei também que para eles é um orgulho ter aqui um português a ter algum sucesso…”

14)Alguma vez recebeu propostas de clubes da 1ª Liga Portuguesa? Jogar na principal divisão de Portugal é uma ambição que tem?

“Sim recebi algumas propostas e muitas sondagens. Pensei mesmo na altura que saí da Holanda que iria jogar para Portugal… Sim é um desafio que quero concretizar. Quero mostrar também que tenho valor mais do que suficiente para lá jogar. Quando surgir a proposta certa vou aceitar com certeza. Mas não faço disso uma obsessão. Quando acontecer…”

15)A nível de estado físico, lesões graves e/ou permanentes, como tem sido a carreira?

“Graças a Deus nestes últimos 3 anos, por lesão não falhei mais q 4 ou 5 jogos! Espero que assim continue!”

O “portugueses no estrangeiro” agradece desde já toda a simpatia e disponibilidade manifestadas pelo jogador português, que proferiu no final da entrevista a seguinte frase:

“Foi um prazer responder às suas perguntas. Sempre que necessitar esteja à vontade!”

O prazer foi todo do “portugueses no estrangeiro”, que aproveita para desejar as maiores felicidades a Tozé Marreco na sua carreira profissional.

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Ações

Information

14 responses

11 05 2010
Ricardo Figueiredo

Boa entrevista. Parece-me um jogador extremamente acessível e, ao mesmo tempo, intlectualmente evoluído. Espero que tenha boa sorte e que, para o ano, dê o salto para outro clube, já que o Servette não sobe esta temporada.

Abraço

11 05 2010
O Nosso Futebol

Parabéns,boa entrevista.Parece ser um jogador com algum potencial e como foi referido no comentário do Ricardo,espero que consiga dar o salto para um clube melhor.

O Nosso Futebol
http://onossofuteb0l.blogspot.com

11 05 2010
Joel

excelente iniciativa , esta de fazer entrevistas aos jogadores que jogam fora de portugal. É a oportunidade de dar a conhecer alguns desses jogadores que jogam fora de portugal.
Muito bom

11 05 2010
Ricky_cord

Grande Tozé Marreco. É mais um caso de um jovem jogador português que quase foi obrigado a ir jogar para o estrangeiro. Achei curioso o facto de ter dito que nunca viu um jogo da 1ºa divisão… Acho que seria positivo começar a ver alguns.

12 05 2010
Gaspar

Tantos que se perdem por não ter oportunidades em Portugal…

Mas de quando em vez assola-me uma questão… será que estes jogadores mais medianos, se sujeitariam em Portugal ao que se sujeitam por esse mundo fora…

Penso que em muitos casos, não em todos, se trata um pouco do reflexo da nossa emigração.

Paulo, o comentário no Desporto Que Marca não aparece não sei porquê. Aceitei-o, mas não aparece, se quiser fazer o favor de voltar a comentar, agradeço…

Abraço e bom trabalho.
Fernando Gaspar
http://www.desportoquemarca.blogspot.com

12 05 2010
Pedro Veloso

Óptima entrevista, muito boa sorte para o Tozé Marreco.

http://sectorofensivo.blogspot.com/

12 05 2010
MercadoLeoninoFM

Gosto muito do seu site e gostaria de o comentar mais,só que ás vezes é o tempo e por outras,é ser muito complicado fazer comentário no seu site.
É um grande blog e só não tem mais comentários por ser dificil ou ás vezes a fakta de paciencia para colocar nome etc..
Se não acredito que teria muito muito mais.
Fico feliz por saber que visita o meu blog eu també venho cá diariamente quase apesar de não comentar muito.

12 05 2010
MercadoLeoninoFM

É um grande site*

12 05 2010
Fábio Silva

Excelente iniciativa, Paulo.
Como já foi referido, também fiquei surpreendido por Tozé Marreco nunca ter assistido a um jogo do máximo escalão do futebol suiço. É, digamos, curioso.

Continuação de bom trabalho
Abraço

http://mosaico-futebolistico.blogspot.com

12 05 2010
Fora-de-Jogo

Muito boa entrevista parabéns. Continuem assim.

Ao Tozé desejo as maiores felicidades pessoais e desportivas.

12 05 2010
Mattos

Muitos parabens pela iniciativa Paulo.
É sem dúvida uma mais valia para o blog e para quem o visita.
Quanto ao Tozé Marreco, posso adiantar que já o acompanho via comunicação social ( escrita ) o seu desenvolvimento enquanto jogador que tentou a sua sorte no estrangeiro e pelo que tenho observado foi sempre um goleador nos clubes por onde passou e tem deixado a sua marca.
Já merecia um bom clube em Portugal.
Força Tozé, estarei atento ao teu desempenho e à tua carreira desportiva.

Continuação do excelente trabalho que estás a desenvolver Paulo.

paixaodabola.blogspot.com

16 05 2010
Fernando

Gostei muito entrevista!

Parabéns ao blog e boa sorte para a carreira do Tozé!

26 05 2010
jose lopes

Caro Gaspar duvido que o atleta TO ZE se sujeite a condicoes parcas,nao ponho sequer isso em questao.
Talvez nao conheca alguns clubes por onde ele passou,expecialmente no ZWOLLEn da HOLANDA que tem estrutura a todos os niveis comparavel aos tres grandes da nossa praca.
So tive pena foi de ele nao ter ficado mais um ano neste clube,teria explodido certamente na epoca passada,.
saudacoes desportivas.

23 06 2010
Portimonense pensa em Tozé Marreco « Portugueses no Estrangeiro

[…] O jogador luso , que já foi entrevistado pelo “Portugueses no Estrangeiro” (clique aqui para ver), representa actualmente os suiços de Servette, e é um dos principais goleadores […]

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